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Novidades

25.06.2010

Entrevista com o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão

Foram vacinadas 81 milhões de pessoas no Brasil contra a gripe A (H1N1), ou seja, 88% do público-alvo, revelou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Neste ano foram registradas 609 internações e 74 mortes pela doença. O ministro afirmou que não está definido se em 2011 será feita uma nova vacina contra a gripe A. Interessados em se vacinar podem recorrer agora às clínicas particulares. Mulheres que engravidarem também podem procurar a imunização. Mas, para elas, a vacina gratuita estará disponível nos postos públicos até terminarem os estoques. Ele explica também como os bares e restaurantes podem se engajar nessa luta e quais medidas de prevenção eles devem adotar.

1 – Com a realização da campanha de vacinação contra a gripe, pelo Ministério da Saúde, qual o cenário esperado pelo governo brasileiro para um novo surto da gripe A (H1N1), este ano?

Ministro Temporão- Até o momento, o comportamento da nova gripe se assemelha ao da gripe comum. A maioria absoluta das pessoas que adoece, seja pela gripe comum, seja pela gripe pandêmica, desenvolvem formas leves da doença e se recuperam, mesmo sem uso de medicamentos. Para ambas as gripes pessoas com doenças crônica, gestantes e crianças menores de dois anos são mais vulneráveis. Mas quando consideramos a população jovem previamente saudável, este vírus pandêmico tem um maior potencial de causar doença grave, quando comparado com o vírus da gripe comum. Por outro lado, o vírus pandêmico tem acometido menos as pessoas maiores de 60 anos. Ainda são necessários estudos mais aprofundados que estão sendo realizados, em todo o mundo, para esclarecer o comportamento do novo vírus. O que temos de concreto, até o momento, é que em 2009, dos 2.051 óbitos registrados, 1.539 (75%) ocorreram em pessoas com doenças crônicas. Entre as grávidas (189 morreram, ao todo), a mortalidade foi 50% maior que na população geral. Adultos de 20 a 29 anos concentraram 20% dos óbitos (416, no total). Adultos de 30 a 39 anos concentraram 22% dos óbitos (454, no total). E as crianças menores de dois anos tiveram a maior taxa de incidência da doença no ano passado (154 casos por 100 mil habitantes).

2- É possível prevenir um novo surto da gripe H1N1?
Ministro Temporão- Não, uma vez que o mundo está em pandemia desde julho do ano passado, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu que seria impossível conter a transmissão do vírus. O que se espera, com a vacinação, é reduzir o risco de que as pessoas mais vulneráveis ao vírus H1N1 adoeçam de forma grave e, consequentemente, morram. Para isto, investimos R$ 1,4 bilhão na compra das vacinas. Além disso, investimos mais R$ 525 milhões na compra de equipamentos hospitalares, atenção básica e capacitação de profissionais de saúde.

3 – Quais os tipos de vacinas foram utilizadas pelo governo brasileiro e qual é a eficiência desses medicamentos?
Ministro Temporão- O Brasil está utilizando vacinas injetáveis, monovalentes, ou seja, que imunizam apenas para o H1N1. Elas têm mais de 95% de eficácia e são absolutamente seguras, pois utilizam a mesma tecnologia de produção da vacina da gripe comum, considerada uma das mais seguras do mundo. A vacina da gripe comum, que é dada todos os anos aos idosos, imuniza para outros dois tipos de vírus influenza. Mas, atualmente, mais de 95% dos casos graves de gripe são causados pelo H1N1. Em alguns países, como Cuba e Canadá, este índice chega a 100%. Então, podemos afirmar com segurança que a população mundial está muito mais vulnerável ao H1N1 do que a qualquer outro tipo de vírus da gripe.

4 – Qual a estratégia utilizada para a vacinação? Quantas pessoas estarão imunizadas com a realização dessa campanha?
Ministro Temporão- Os objetivos da vacinação são proteger os trabalhadores de serviços de saúde e reduzir os riscos dos grupos mais vulneráveis a adoecer e morrer. Vacinamos, simultaneamente, em mais de 36 mil salas de vacina de todo o país, no período de 8 de março a 21 de maio. Cumprimos a meta e imunizamos 88% da população-alvo, que é de 81 milhões de pessoas. Essa estratégia, a maior da história do Programa Nacional de Imunizações, é fruto de um importante consenso entre o Ministério da Saúde e 19 parceiros, entre representantes de estados e municípios, sociedades científicas, entidades de classe de profissionais de saúde e meio acadêmico.

5 – O senhor afirmou no início do ano, que o ministério resolveu permitir a venda de medicamentos com o princípio ativo chamado oseltamivir, o mesmo do Tamiflu, com a retenção da receita. Haverá alguma operação especial para o controle da comercialização e impedir a venda indiscriminada desse medicamento?

Ministro Temporão- Na verdade, a venda do medicamento sempre foi permitida. Nunca houve restrição, por parte do Ministério, para comercialização do oseltamivir. O que houve foi recomendação para uso racional do medicamento, seguindo critérios científicos, que indicam o princípio ativo apenas para casos específicos, de doentes em estado grave ou com risco de agravamento. Este ano, com o estoque de 21,9 milhões de tratamentos, o Ministério expandiu a oferta do medicamento, que terá distribuição gratuita em postos, hospitais definidos pelas Secretarias Estaduais de Saúde e unidades do programa Farmácia Popular, do governo federal. O antiviral também estará disponível em unidades do programa Aqui Tem Farmácia Popular, da rede privada conveniada, a preços subsidiados pelo governo federal. A obtenção do remédio será apenas com retenção de receita médica, que terá validade de cinco dias. Mas é muito importante reforçar que as pessoas não devem tomar medicamento por conta própria, as farmácias não devem vender o antiviral indiscriminadamente e o abastecimento das farmácias privadas (inclusive da rede Aqui Tem Farmácia Popular), depende da disponibilidade do produto por parte do fabricante.

6 – Qual será o período de maior risco de contaminação?

Ministro Temporão- O período de maior transmissão dos vírus influenza tradicionalmente ocorre agora no inverno, quando as temperaturas são mais baixas e as pessoas tendem a se aglomerarem mais em ambientes fechados.

7 – Além da campanha de vacinação, quais as principais medidas que o governo adotará para evitar a proliferação do vírus e para tranquilizar a população?
Ministro Temporão- Campanhas de informação, que estão no ar desde janeiro, são ferramentas muito importantes. Mas é preciso sempre reforçar que hábitos simples de higiene são igualmente eficazes, como lavar as mãos frequentemente, usar lenço descartável ao tossir ou espirrar e não compartilhar objetos de uso pessoal se estiver com sintomas de gripe.

8 – E quais as medidas que a população de forma geral deve adotar?
Ministro Temporão- Além das medidas de higiene, orientamos que as pessoas com sintomas de gripe não tomem medicamentos por conta própria, pois isto pode mascarar os sintomas e dificultar o diagnóstico. Ao sentirem sintomas de gripe, como febre, dor de cabeça, tosse e dificuldade de respirar, devem procurar o serviço de saúde mais próximo.

9 – O Ministério está fazendo parcerias com entidades representantes de diversos setores para a definição de estratégias de prevenção para evitar a contaminação e propagação do vírus da nova gripe?
Ministro Temporão- Sim, não se atinge um objetivo tão ousado e tão importante para a saúde pública do país sozinho. Em um país de dimensões continentais como o nosso, a mobilização de parceiros é fundamental para o sucesso de estratégias como a de vacinação contra a gripe pandêmica, que se configura como o maior desafio já enfrentado pelo Programa Nacional de Imunizações, com vacinação de praticamente metade da população brasileira. A iniciativa privada, as igrejas, os governos estaduais e municipais, entidades de classe, sociedades científicas, meio acadêmico, todos são peças fundamentais.

10- Serão adotadas estratégias específicas para os bares e restaurantes? O que será feito para estes estabelecimentos especificamente?

Ministro Temporão- Por serem lugares de grandes circulação de pessoas, bares, restaurantes e lanchonetes são pontos importantes de divulgação da estratégia de vacinação, como o calendário de imunização para cada grupo específico.

11 – Como os empresários desse setor devem atuar na prevenção?

Ministro Temporão- Eles podem ajudar justamente na disseminação de informações, contribuindo para instruir as pessoas que eventualmente ainda desconheçam a estratégia de vacinação ou que não estejam atentas às datas em que devem ser vacinadas.

12 – No ano passado, a gripe assustou muito, tanto a população, quanto o poder público. Em Cascavel (PR), por exemplo, a Secretaria de Saúde determinou o fechamento durante uma semana de todos os estabelecimentos fechados, como cinemas, igrejas, faculdades, bares e restaurantes para evitar a proliferação do vírus. E a Vigilância Sanitária ficou responsável pela fiscalização do cumprimento dessa determinação. Como o senhor avalia medidas como estas? É possível parar um país por causa da gripe?
Ministro Temporão- É preciso bom senso com medidas que podem afetar radicalmente a rotina de uma comunidade, um município, um estado e, consequentemente, um país. Em uma situação de contenção da disseminação do vírus, que no ano passado durou pouco tempo, ações como esta poderiam ter algum impacto, mas em pouco tempo percebeu-se que, diante da velocidade de transmissão do vírus, em poucas semanas a OMS declarou que mundo estava em pandemia.

13 – O que será feito para evitar alarmismos e reações desproporcionais como esta?
Ministro Temporão- É natural que em situações desconhecidas a sociedade se sinta insegura. Nestes casos, é fundamental buscar informações de qualidade, evitando, por exemplo, dar importância a boatos, que circulam principalmente na internet. Informações desse tipo são um disparate e revelam profunda ignorância. A população deve confiar no seu médico e nas autoridades de saúde, não em qualquer texto, escrito não se sabe por quem, que circula na rede mundial de computadores.

14 – Com relação ao controle dos viajantes e turistas, o que será feito? As fronteiras serão monitoradas? Haverá barreiras sanitárias para interceptar veículos e pessoas oriundas de áreas contaminadas?

Ministro Temporão- Em uma situação de pandemia, não se fala mais em conter o vírus, simplesmente porque isto não é mais possível, pois o H1N1 está presente em mais de 200 países, segundo a OMS. Logo, não faz mais sentido falar em “áreas” ou “países” de risco. Portanto, ações em fronteiras, como fizemos nas primeiras semanas após o surgimento da nova gripe, no ano passado, não têm mais sentido. Os aeroportos, porém, são um importante espaço para divulgação de orientações às pessoas.

15 – Haverá uma campanha ou ação específica para orientar os turistas?
Ministro Temporão- Da mesma forma, com uma pandemia em curso, ser turista não é condição de maior ou menor vulnerabilidade. Portanto, a orientação é a mesma para o cidadão que reside no país: observar as medidas de higiene, não se automedicar e, se sentirem sintomas de gripe, procurar o serviço de saúde mais próximo.

16 – Com relação aos eventos, onde acontecem grandes aglomerados de pessoas, haverá alguma determinação especial para a realização ou mesmo a proibição durante o período de risco da nova gripe?
Ministro Temporão- Nenhuma recomendação geral, para todo o país. Assim como procedemos no ano passado, a avaliação da necessidade de tomar medidas sociais, como interferir em eventos e atividades públicas, compete ao gestor local de saúde, do município ou do estado, que conhecem melhor a realidade do lugar. Repetindo: é preciso bom senso.

Fonte: Abrasel